Sheherazade não me surpreende mais, ela trabalha
numa antiga e reacionária emissora de TV, e cumpre diariamente o seu papel de
âncora de um jornal informativo. E âncora no sentido mais concreto da palavra,
aquele objeto enorme que jogado ao mar faz o nosso barco ficar parado na
imensidão azul (ou melhor, seu tipo de âncora pode deixar nosso barco
encalhado).
Difunde ideias conservadoras, como uma exímia
ideóloga da burguesia, e recentemente fez um comentário fascista a favor da
agressão que aquele jovem negro de quinze anos sofreu no Rio de Janeiro, no
começo deste mês (veja o referido comentário). Ele foi espancado, teve a
orelha ferida com um golpe de faca e foi amarrado nu, com uma trava de
bicicleta no pescoço, em um poste no bairro do Flamengo.
Segundo ela, a ação dos “Justiceiros” é em legítima
defesa. Mas o jovem foi abordado enquanto andava pela calçada com três amigos,
por trinta homens em quinze motos, que abordaram aos gritos e agreções esses
que caminhavam pela calçada, sem nenhum delito ou flagrante. Eram quatro
jovens, três conseguiram correr da covardia, um, infelizmente ficou para a
“justiça” dos fascistas.
Essa
repórter poderia nos explicar que legitima defesa é essa? Trata-se é de uma
legitima covardia! Pois, quem acompanhou o caso sabe que o menor, que duramente
agredido, ao ser socorrido por uma cidadã consciente dos Direitos Humanos
libertou o pobre rapaz e levou-o ao hospital. Ele, assustado e traumatizado
fugiu do hospital e apresentou-se numa casa de acolhimento da Prefeitura do
Rio. Enquanto os “Justiceiros” (da sociedade de classes) tinham tanta
legitimidade em sua ação que não fizeram o mesmo, numa Delegacia ou mesmo na
sua renomada emissora de TV, que certamente teriam voz e, talvez, na casa
daquela senhorita âncora teriam até exílio se fosse preciso e possível (uma vez
que os defensores dos Direitos Humanos devem adotar um bandido, na sua maldita
campanha).
Hoje, lendo algumas notícias deparo-me com um texto
seu “Rachel Shaherazade: ordem ou barbárie”. Um artigo nojento, com passagens
do tipo:
“O ECA (Estatuto da Criança e do
Adolescente), o Estatuto da Impunidade, está sempre à serviço do menor
infrator, que também encontra guarida nas asas dos direitos humanos e suas
legiões de ONGs piedosas. No Brasil às avessas, o bandido é sempre vítima da
sociedade. E nós não passamos de cruéis algozes desses infelizes” (se ter
estômago, leia).
Senhorita Rachel Sheherazade, desde quando cadeia
acaba com a violência? Você acha que o menor cumprindo como adulto, é a melhor
opção para o combate ao crime? Diga-me a quantas anda o sistema carcerário
brasileiro, faça-me o favor! Não são os pobres e os menores infratores que a
impunidade beneficiam, por onde andam o Maluf e tantos outros corruptos que
exploram o povo através de sua política corrupta?
É sabido que a violência é um problema urbano que
historicamente arrasa nossas sociedades, e nos dias de hoje as situações têm
aumentado e piorado, já disse Karl Marx “a história se repete a primeira vez
como tragédia e segunda vez como farsa”, mas, longe de naturalizar este
problema social, devemos olhar criticamente (assim como os seus comentários) e
procurar uma solução a partir de uma análise histórica, como fez Marx. E a
solução, certamente, não virá da astúcia de um bando de homens brancos metidos
a “Justiceiros”, senão de um movimento de ruptura e emancipação da classe
trabalhadora contra o capital, à transformação completa e imediata de toda a
sociedade, com o fim da estrutural divisão de classes que divide os humanos em
toda a história da humanidade.
Eduardo,
ex-vocalista do grupo de rap Facção Central, já disse em inúmeras letras que a
mesma indiferença que os ricos (e a senhorita) fazem dos pobres num semáforo
qualquer, é como serão tratados quando aquele menor que pede esmolas terá para
apertar o gatilho, numa atitude de desespero para conseguir alguma coisa, por
vezes um prato de comida.
“Friedrich Engels disse um dia: “A
sociedade burguesa se encontra diante de um dilema: ou avanço para o socialismo
ou recaída na barbárie.” Mas o que significa “recaída na barbárie” no grau de
civilização que conhecemos hoje na Europa? Até hoje nós temos lido estas
palavras sem refletir sobre elas e nós as temos repetido sem perceber sua
terrível gravidade. Lancemos um olhar ao nosso redor neste momento e nós
compreenderemos o que significa a recaída da sociedade burguesa na barbárie. A
vitória do imperialismo leva ao aniquilamento da civilização – esporadicamente
durante o curso da guerra moderna e definitivamente se o período de guerras
mundiais que se inicia agora vier a prosseguir sem entraves até suas últimas
conseqüências. É exatamente o que Friedrich Engels havia predito, uma geração
antes de nós, há quarenta anos. Nós estamos colocados hoje diante desta
escolha: ou bem o triunfo do imperialismo e a decadência de toda a civilização
tendo como conseqüências, como na Roma antiga, o despovoamento, a desolação, a
degenerescência, um grande cemitério; ou bem vitória do socialismo, ou seja, da
luta consciente do proletariado internacional contra o imperialismo e contra
seu método de ação: a guerra. Eis aí o
dilema da história do mundo, sua alternativa de ferro, sua balança no ponto de
equilíbrio esperando a decisão do proletariado consciente. O proletariado deve
jogar resolutamente na balança a sua espada do combate revolucionário: o futuro
da civilização e da humanidade dependem disto. No curso desta guerra o
imperialismo teve a vitória. Fazendo pesar a espada sangrenta do assassinato
dos povos ele fez pender a balança para o lado do abismo, da desolação e da
vergonha. Todo este fardo de vergonha e desolação só será contrabalançado se,
do meio desta guerra, nós soubermos retirar a lição que ela contém, se o
proletariado conseguir se reorganizar e se ele parar de representar o papel de
um escravo manipulado pelas classes dirigentes para se tornar o dono de seu
próprio destino” Rosa Luxemburgo – “A crise da social democracia folheto
junius” (negritos meus).
Hoje a guerra é reproduzida nas ruas das grandes
cidades; as metrópoles são, ao mesmo tempo, o centro das oportunidades e da
violência urbana. Armas de fogo são contrabandeadas aos olhos das autoridades
nacionais e mundiais para as favelas do Rio de Janeiro, São Paulo, Cidade do
México e até Afeganistão. Assim como passam as drogas (criminalizadas na nossa
sociedade), passam toneladas de armas pelas fronteiras de nosso país, entrando
nas cidades, chegando fuzil nas mãos de crianças e jovens despossuídos de
condições sociais para rumarem uma vida digna, longe da violência.
Certamente, Shaherazade optou pelo caminho mais
fácil de sua vida, uma mulher branca que estudou numa renomada Universidade
Federal, do mesmo modo muitos jovens e crianças também trilham o caminho mais
fácil, longe de uma boa educação e de um espaço urbano e familiar que lhes
proporcionem melhores condições e esperança, estão nas ruas, levando a vida
como podem e o caminho mais fácil para eles não foi o da escola, do lápis e do
caderno, mas o da rua e até mesmo o do crime.
À Senhorita jornalista (e aos seus simpatizantes),
que parece ter se esquecido dos anos de escravidão negra em nosso país e a
origem das favelas e da pobreza, também ouso fazer uma campanha: ADOTEM UM
JUSTICEIRO, e leve-o para longe deste mundo, pois desta justiça fascista não
precisamos!



Nenhum comentário:
Postar um comentário